A desidentificação com o ego e a noite escura da alma
- Lidiane Passos
- 17 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Na psicologia analítica junguiana, aprendemos que, ao longo da jornada humana, existe um momento, geralmente após algumas rupturas importantes, que chamamos de desidentificação com o ego.
Até esse ponto da vida, depois da formação do ego, percebemos e sentimos o mundo a partir dele, como se o ego fosse o centro do nosso universo interno.
É através dele que organizamos a realidade, tomamos decisões, nos reconhecemos e nos apresentamos ao mundo.
A desidentificação com o ego, no entanto, provoca mudanças muito profundas.
Começamos, por exemplo, a olhar para o corpo.
A perceber o corpo que sente antes de compreender com a mente.
Passamos a considerar o corpo emocional, a permitir que as emoções fluam, sem a necessidade imediata de controle ou entendimento.
Também nos tornamos mais sensíveis ao campo intuitivo, aquela percepção sutil que nos avisa quando algo não está certo em um lugar, ao nos aproximarmos de uma pessoa, ao vivenciarmos determinadas situações...
Esse movimento toca diretamente essa instância mental onde as conversas internas aconteciam e que, por muito tempo, acreditávamos ser o centro absoluto da nossa percepção.
É nesse ponto que começamos a perceber algo maior, aquilo que Jung chamou de Self,
A Voz Daquela que Sabe.
É importante perceber que, na visão analítica, o ego não é algo a ser combatido ou “endemoniado”.
O ego é parte fundamental da estrutura psíquica humana.
Ele precisa ser reconhecido, fortalecido e trabalhado no processo de autoconhecimento para se tornar um ego estruturante.
Mas isso só se torna possível a partir do momento em que deixamos de nos identificar completamente com ele.
Esse processo não acontece uma única vez na vida, ele se repete em diferentes fases, permitindo que possamos abraçar um novo eu pequeno, um novo ego que surge para com o tempo, nos identificamos novamente com essa nova configuração...
... até que, mais adiante, outra desidentificação se faça necessária.
Aqui, mais uma vez, a vida se revela em ciclos.
A vida interna também é cíclica.
É comum que essas transições venham acompanhadas de crise.
Chamamos esse período de A Noite Escura da Alma.
Ela traz uma sensação intensa de perder o chão, questionamos quem são as pessoas ao nosso redor, o lugar onde estamos, o trabalho que fazemos, as escolhas que sustentamos.
Surge uma ânsia profunda por mudanças de atitude e de comportamento, o que muitas vezes gera inquietação, agitação e confusão.
É uma crise que fala, que convoca, que pede escuta.
E no centro deste furacão - Voz da Alma.
Até que aconteça a identificação com esse novo ego, com esse novo momento da vida, permanecemos nesse limbo, nessa noite escura da alma e esse é um dos pontos mais desafiadores da jornada humana.
E é exatamente aqui que o trabalho terapêutico se torna essencial.
O terapeuta caminha junto com a pessoa nesse processo, sustentando o espaço para que essa travessia aconteça com mais consciência, cuidado e profundidade.
Paradoxalmente, esse também é um dos momentos mais belos do processo analítico.
É profundamente comovente testemunhar quando uma mulher renasce a partir de si mesma.
Renasçamos!

Renascimento na Água - Retiro Napele da Alma - Baseado no livro Mulheres que correm com os lobos.




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